INSPETORIA | ARTIGO: ALÉM DA BATINA
INSPETORIA | ARTIGO: ALÉM DA BATINA
2 de outubro de 2026 Por pauloPor Denilson Rodrigues
Quando pensamos em um padre, talvez a nossa mente vagueie por imagens de batinas, missas e sermões. Mas nesta reportagem, eu te convido a voltar 90 anos no tempo. Essa história é sobre um menino chamado José, que antes de se tornar o Padre Ferreirinha, fugiu, com sua família, de Mata Grande (AL) para Juazeiro do Norte (CE), ameaçado por Lampião.
Nascido em 27 de janeiro de 1928, criado em uma família de agricultores, José trabalhou na roça desde os cinco anos de idade. Foi impedido de estudar até os 15 anos, quando ingressou no Colégio Salesiano. Professou seus primeiros votos em 31 de janeiro de 1952 e foi ordenado padre em 8 de dezembro de 1961. Iniciar a formação para se tornar religioso foi um refúgio, sua nova perspectiva, o anseio para “ser alguém na vida”, como dizia seu pai.
Pensar a história do menino José é fazer memória de uma época em que a criança era apenas um trabalhador de baixa estatura. É fazer com que não caia no esquecimento o duro passado de nossos avós, que racharam os pés no sol quente, almoçaram feijão com farinha de mandioca e enxergavam a escola como um sonho distante.
A vida de José Ferreira é um convite! Nos chama para o que está além da batina, além das rugas. É fazer memória das nossas eternas crianças, eternos sonhadores que têm muita história para contar.
O DESTERRO
Jumento com carga, pés no chão – essa é a imagem de Nossa Senhora do desterro, título que recorda a fuga da família de Nazaré para o Egito. Jesus, Maria e José, segundo às escrituras, saíram de Belém, em Israel, e foram buscar refúgio no Egito, após Herodes ter mandado matar os meninos de até 1 ano de idade. Daí o desterro – desterrados, sem-terra, perseguidos. Essa cena é lembrada pelo sacerdote mais idoso de Juazeiro do Norte com devoção. Foi de uma forma parecida que ele, o Padre Ferreirinha, 95, e sua família vieram parar em Juazeiro do Norte: perseguidos – não por Herodes, mas pelo Capitão Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.
Anos 30, Sítio Pedra Redonda, município de Mata Grande, Alagoas. “Hoje esse sítio se chama Promissão, está mais desenvolvido, só que naquela época era só mato e ladeira e a gente morava numa serra”, relembra Ferreira, filho de camponeses, gente da roça. José fora o segundo dos dez filhos de Antônio Ferreira Lima e Maria José da Conceição. Como todo menino que nasceu no campo, gostava de leite de cabra que a mãe ordenhava. “Uma mulher que não teve muito estudo, mas tinha a mão boa pra criar menino, porco, galinha e cabra pra nós beber leite”. O pai era marceneiro, o típico homem brabo da roça, “a gente conversava com mãe, mas com ele não. Ele marcava a tarefa e era pra nós terminarmos no fim do dia, se não levava peia”.
Foi nesse medo de levar peia que José, entre cinco e seis anos de idade, se misturava com os trabalhadores da terra. “Não tinha negócio de brincadeira não. A brincadeira era a enxada na mão. Eu no meio dos empregados e Pai olhando de longe. Quando eu virava, ele gritava – Trabalha, menino!”.
Bruto igual seu Antônio só o padrinho, Toinho, irmão de dona Conceição. “Eram brutos, mas eram religiosos também, juntavam grupos lá em Alagoas e traziam pra cá, pro Juazeiro, pra visitar o Santo Padre Cícero”. Santo – é como ele sempre se referiu ao patriarca do Nordeste, antes mesmo da Diocese de Crato ter dado permissão aos padres para falarem no nome de Cícero Romão Batista. E, desde aquele tempo, quem era romeiro, sempre considerou o homem como santo. “Eu acho até que o Santo Padre Cícero deve ter puxado as orelhas de meu pai e meu padrinho nessas viagens, porque os dois eram andados no gatilho, no bando de Lampião”.
De início, Padre Ferreirinha parecia ter dificuldades de lembrar como essa perseguição do Capitão Virgulino começou, mas depois de esfregar a mão umas três vezes nos olhos e na cabeça, disse que sabia que o padrinho tinha se metido em “uma coisa ruim. Lampião matou um amigo de meu padrinho e aí meu filho, ele quis vingança, armou uma emboscada para matar o capitão Virgulino. Ele mandou um convite para ele, dizendo que queria um encontro. Lampião escolheu quatro cangaceiros dos mais famosos que tinham – era um tal de Cajueiro, Fortaleza e os outros eu não lembro. […] Meu padrinho chamou mais 6 companheiros, armou essa emboscada e matou quatro cabas de Lampião, mas não matou o capitão porque ele não foi”.
Era dezembro de 1935 e a vida em Mata Grande já não era mais segura. Os cangaceiros faziam visitas na casa dos Ferreira, pediam dinheiro e começavam a perseguir também seu Antônio. “Eles não nos faziam mal, queriam 400 contos. Eu sei que disseram a meu Pai que os cangaceiros estiveram lá por casa e que a gente tinha que fugir.” A família saiu de Mata Grande e foi para Triunfo, no Pernambuco, mas Lampião também andava por lá. “A gente continuou viajando, tudo com as coisas em cima do burro e andando a pé”. Chegaram em Juazeiro do Norte em fevereiro de 1936, quase dois anos depois da morte do “Santo” Padre Cícero.
ABC COM MACAÚBA
A Rua São João, hoje, Alencar Peixoto, serviu de refúgio para a família dos ferreira. “Eu lembro que éramos três filhos, os outros seis só nasceram aqui”. Juazeiro do Norte nessa época estava em constante transformação. A vinda deles foi anterior à inauguração de grandes templos. O Santuário São Francisco das Chagas, dos Franciscanos, foi erguido em 1950 – 15 anos depois da chegada dos ferreira. O menino José só não viu a Igreja dos Salesianos ser construída porque em 1949 já ingressara no Seminário.
Tirando os cangaceiros, de início, a vida em Juazeiro do Norte não tinha lá muita diferença da que era levada no Sítio Pedra Redonda. A casa era em Juazeiro, mas o trabalho era no Crato. “Trabalhei no Baixio do Muquém, no Baixio das Palmeiras”, ambos sítios na zona rural cratense. “Naquele tempo, homem não era pra ser doutor não, era pra ser trabalhador da roça”. As mudanças mesmo só começaram a chegar em 1939, quando a escola se tornou realidade.
“Eu vinha para o Oratório aqui no Colégio Salesiano. Pai mandava a gente vir para cá aos domingos, para participar da missa e do catecismo. Era engraçado, porque os homens e as mulheres ficavam separados na capela”.
O oratório era um espaço de acolhida da juventude, um local que o fundador dos salesianos, Dom Bosco, enxergava como oportunidade de dar educação, oração e trabalho aos jovens da periferia de Turim, na Itália, no século XIX. Quando os salesianos se espalharam pelos continentes, essa tradição foi levada, chegando também a Juazeiro do Norte.
Foi em uma dessas idas ao Oratório São João Bosco que “um véi da cabeça branca, chamado seu Batista me puxou do meio da molecada”. Seu Batista era salesiano coadjutor, um leigo consagrado, que não é padre, mas que vive a vida religiosa junto com os sacerdotes salesianos, mais próximo à juventude. Foi esse velho da cabeça branca que indagou o José de 15 anos:
- Você está na escola?
- Eu não. Tenho que ir pra roça e meu Pai não quer que a gente vá estudar não.
- Mas a escola à noite é
O Colégio Salesiano São João Bosco nessa época sedia espaço para a Educação de Jovens e Adultos. Durante o dia, estudavam os filhos daqueles que podiam pagar o particular, e à noite, estudavam os jovens mais pobres de Juazeiro, sobretudo aqueles que precisavam trabalhar durante o dia. A ideia de uma escola de “graça” deixou José animado.
- Mãe, aquele véi da cabeça branca disse que é pra eu ir pra
- Vou falar com seu
Naquela noite, José se escondeu para ouvir a conversa dos pais, caladinho na beira da porta da cozinha. Dona Conceição falou com seu Antônio que, por sua vez, encrespou com a novidade.
- O que? E eu vou ficar sozinho na roça? – Os dois se calaram. Mas, no outro dia, José convenceu a mãe.
- Ô mãe! Eu ouvi e olhe, eu não vou deixar o trabalho, mas eu vou pra
Dona Conceição fez de tudo pelo menino, comprou a cartilha do ABC, um lápis e uma borracha. “Mãe era analfabeta, mas não era tão rude assim não”, foi pelo esforço dela que o José de quinze anos foi estudar.
Em meados dos anos 40, José continuava na roça, mas estudando, sendo alfabetizado pelo Dr. Geraldo Menezes, de quem se tornaria amigo.
“Trabalhava o dia todo comendo catolé e chupando macaúba, macaxeira crua com rapadura e feijão frio – dava cada dor de barriga”, relembrou soltando uma gargalhada, o Padre Ferreirinha. “E era todo dia assim, comia debaixo da sombra da macaubeira, com a cartilha na mão, repassando a lição”.
QUAL É TUA VOCAÇÃO? – EU NEM SEI O QUE É ISSO!
Seu Antônio começou a adoecer em março de 1945 e José teve que passar ainda mais tempo na roça, trabalhando em dobro para substituir o Pai. “Nem vontade de ir para a escola eu tava tendo mais e seu Batista vivia me dizendo que eu devia ser salesiano, mas eu dizia que não ia ser porque pai não ia deixar”.
Estava na época em que os agricultores aguardavam pela promessa de chuva do dia de São José, padroeiro do Ceará. Enquanto o José do céu não mandava chuva, o José da terra continuava plantando. Era uma tarde como qualquer outra, o sol rachava o céu, mas no meio do horizonte vinham dois a cavalo. “Era meu pai e um colega. Pai tinha vindo me dizer que seu Batista tinha mandado me chamar”.
- Deixe isso aí – disse o Pai olhando para a – Vá para casa porque amanhã você vai para o Colégio, seu Batista mandou chamar. Se não for dessa vez, tu não vai mais nunca pra lá.
José pegou a enxada, pôs nas costas e saiu. Naquela noite suas irmãs dormiam, mas sua mãe ainda estava acordada “lavando as roupinhas, esperando por mim”. Seu pai lhe passara sermões, reproduzindo um discurso muito comum para aquela época.
- Tu vai para lá, se tu não servir para ser padre, não precisa mais nem Fique por lá mesmo, chaleirando os padres – “chaleirar é cortar jaca, é como chama babão, bajulador”. Mas naquela mesma noite, seu Antônio parecia ter amansado um pouco mais o coração. Na madrugada da despedida, ele falou diferente.
- Vá se despedir de sua mãe, tome a bença, dê um abraço e beije a mão. – José o
Ali perto ficava a casa de dona Isabel que tinha um monte de cachorro, à noite, ficavam todos soltos. José tinha o rosário no pescoço e um pedaço de pau na mão. “Eu atravessei o escuro que parecia que eu nem ia pisando no chão, ia rezando…
Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador. Se a ti me confiou a Piedade Divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine. Amém!
Os cachorros nem me viram; meu anjo da guarda me valeu.”
Na manhã do dia seguinte, havia dois caminhões esperando por jovens que tinham entre 15 e 17 anos e que iam viajar para Jaboatão dos Guararapes, no Pernambuco, para iniciar a formação salesiana. Alguns alunos viram chegar alguém diferente no meio deles, era o “matuto da roça”.
- E essa camarada vai? Ei, qual é tua vocação?
- Vocação? Eu não sei nem o que é isso! – respondeu José.
- Eu estou lhe perguntando se você vai ser padre ou irmão
- Nam, seu Batista não me falou que eu ia ser padre não, só me disse que ia ser
Os rapazes que desejam se consagrar como Salesianos de Dom Bosco (SDBs) sempre iniciam a formação juntos. Mais à frente, em um certo período nos estudos, eles optam por se tornarem presbíteros (padres) ou irmãos coadjutores (leigos que atuam principalmente no trabalho pastoral).
“Eram dois caminhões carregados, a carga alta e nós em cima da carga. Saímos daqui em 6 de março de 1945 e chegamos em Jaboatão três dias depois”. Ele viajou sem saber o que o futuro lhe reservava, sem imaginar que, já nos próximos dias, sua vida seria rodeada por batinas pretas e cantos em latim. Não tinha noção de que passaria mais de 30 anos celebrando com comunidades indígenas. Se ia descobrir o que era essa tal de vocação, José não sabia. Ele sabia que ia tentar.
MEMÓRIAS AMAZÔNICAS
Antes dos anos 60, os salesianos nas regiões Norte e Nordeste faziam parte da mesma inspetoria – uma organização regional. Em 1965, com a separação das Inspetorias do Norte e Nordeste, o padre Ferreirinha permaneceu no Norte, fazendo missão. No Amazonas, o verde das cidades de Humaitá e Manicoré é vibrante na memória do sacerdote. Às margens do Rio Madeira ele confessou e batizou muitos. “Não eram índios, eram indígenas, já com famílias misturadas com brancos, falavam português. Tinham umas tribos mais distantes que não falavam português, mas meu contato mesmo foi com essas comunidades que já estavam formadas há muito tempo”.
Nessas comunidades ele foi professor de alfabetização. Fez muitas amizades e de lá herdou o jeito simples de celebrar, sem muito enfeite, mas com muita fé. “Eu celebrava com brancos e indígenas, tudo misturados. Me diziam – o senhor fala pra caboclo entender. Dizem por aqui que minha fala parece de estrangeiro, mas eu sempre falei assim.”
Por lá, fez muitas amizades e até sanfonas distribuiu. “Tem uma que eu dei para um amigo chamado o Cabeça, que até hoje deve ter por lá. Hoje já deve estar com família feita.” Outra amizade duradoura ele teve com o bispo da região, Dom Miguel D’Aversa, que também era salesiano. Foram 34 anos trabalhando com ele. “Eu cheguei até pensar em virar diocesano, mas meu Inspetor me disse que era hora de voltar, que Dom Bosco estava me esperando. E realmente, meu compromisso era com Dom Bosco e com Nossa Senhora Auxiliadora. Em 2005 voltei pra Jaboatão, depois da morte de Dom Miguel. Em 2006 voltei pra Juazeiro”.
PADRE E CATADOR
06 da manhã, poucas pessoas na Igreja, mas muitas ouvindo pelo rádio. De domingo a domingo, essa missa era sua, quem lhe tirou foi a pandemia. Hoje, o Padre Ferreirinha celebra às 06h da manhã na quinta-feira e na sexta-feira, mas também aos domingos, às 11h15.
Batina preta, chapéu na cabeça, “parecendo o padrinho Padre Cícero” – é assim que a maioria dos paroquianos de Juazeiro falam do Padre Ferreirinha quando ele se traja para ministrar a confissão e a unção dos enfermos. “Essa batina eu herdei de um padre lá do
Baixio das Palmeiras que morreu atropelado. A mãe oferecia para uns padres, mas os padres não queriam não. Eu disse que queria; ela me deu.”
Não existe meio-termo: para alguns, é “santo”; para outros, “tenho medo”. Mas se tem algo que é unânime para ambos, é o respeito pelo sacerdote. Talvez a gênese dessa reverência ao padre Ferreirinha esteja no ano de 2007, quando ele passou a residir de vez em Juazeiro do Norte. À época, vendo a enorme quantidade de lixo que deixavam nos arredores da Igreja e do Colégio Salesiano, ele decidiu fazer algo diferente. “Me acordava cedo, saía nas ruas catando papel, lata, juntava para vender e ajudar os pobres. Eu só parei de catar nas ruas porque me disseram que era perigoso.” Ele deixou as ruas, mas começou a bater às portas das casas.
“Eu cansei de ver ele andando pra cima e pra baixo com um sacão nas costas, cheio de recicláveis”, recorda José Odailson, alguém com quem o sacerdote fez amizade nas missas das 06h da manhã. Seu Odailson, como ele o chama, é cantor, toca violão e é dono de uma loja de autopeças, localizada na Rua São Pedro, no Centro de Juazeiro do Norte. Essa cena do padre com o saco nas costas que ele recorda era muito comum. Mas um dia o Colégio Salesiano decidiu lhe entregar uma caminhonete que pertencia à casa, uma D20 que fez história. “Como eu sempre recebo muita mercadoria, acabava sobrando caixas demais. A gente pegava, desmanchava as caixas, embalava e fornecia pra ele. Padre Ferreirinha ia muito lá. Aquela D20 dele saía cheia, mas cheia mesmo, a gente amarrava porque era muito material”.
O próprio padre separava os recicláveis com as próprias mãos. Antes de adoecer, um canto na lateral do campo do Colégio era o seu refúgio. Debaixo de uma tenda, o sacerdote virava catador. Próximo dali, ficavam sua horta e seu galinheiro – eram o seu pequeno sítio, seu refúgio. Foi um costume que só parou depois de uma reforma feita na escola. Com a chegada da covid, o sítio parou de vez.
“O que eu ganhava do dinheiro das reciclagens era tudo para os pobres. A gente mandava cestas básicas para os bairros Aeroporto, Frei Damião e vários outros. Tinha também o seu Zezé do frigorífico que me dava os ossos. Eu levava pras comunidades, lá faziam caldo e dava pra alimentar os pobres de lá”, recorda o padre, lamentando que hoje não possa fazer tanto como no passado. “Ainda bem que tem muita gente que manda deixar as coisas aqui em casa. Na última quinta-feira de cada mês a gente leva as cestas básicas para lá. Tem os doadores que já me conhecem. Padre Fábio (pároco) todo mês me dá também 6 cestas básicas para a gente levar para o bairro Aeroporto. Sempre tem famílias esperando, inclusive testemunhas de Jeová. Levamos mais de cem quilos. Me organizo com meu dinheiro, se me dão, é para os pobres.”
EPÍLOGO
“Vou completar 62 anos de sacerdócio e 72 de salesiano. Eu disse que ia tentar e tentei. Foi uma tentação boa”, é com esse afeto que, aos 95 anos de idade, Padre Ferreirinha recorda sua trajetória. Se passaram 78 anos, mas aquela madrugada em que saiu de casa, no escuro, com medo dos cachorros, continua viva em sua memória. A covid tentou derrubá-lo, mas não conseguiu. “Eu estava no sepulcro em 2021, mas sobrevivi.”
Hoje, o Colégio Salesiano São João Bosco é centro de formação de novos salesianos. Para os pré-noviços, padre Ferreirinha já repetiu inúmeras vezes: “Não pensem que é Mastruz com Leite, o tempo todo não. É xique-xique com chá de Mandacaru”. Os salesianos mais jovens o olham com admiração – “Ah, Ferreira ainda vai enterrar nós tudim”, brinca o padre José Pereira, aos 47 anos.
Apesar das limitações que a idade e a saúde quiseram lhe impor, ele não se deixa abater. Se acorda cedo, às vezes antes do sol, faz suas orações, toma seu café, sua fisioterapia, reza um, dois, três terços, dorme de novo, celebra nos dias para os quais foi escalado, toca sua sanfona – algo que aprendeu de ouvido, vendo sua mãe e seus tios manejarem. Sente saudade, recorda o Rio Madeira e canta:
Ao fim da entrevista, perguntei o que ele pensava de sua própria história. Ele foi direto: “Vale a pena ser padre, vale a pena ser salesiano!”
