CAUSO | Nunca tinha vestido um calção
CAUSO | Nunca tinha vestido um calção
27 de janeiro de 2021 Por suporteNarrativa de José Pinheiro de Souza ( Salesiano no final da década de 50 e início de 60)
Foi precisamente no dia 26 de junho, por volta das 4 horas da tarde, que minha mãe me internou naquela casa (São José do Bodes – Juazeiro do Norte CE). Havia apenas 2 salesianos: o diretor, o Pe. Tiago Avico e o assistente Clérigo Milton. O número de aspirantes era de 30 a 40, aproximadamente. Fiquei tão amatutado naquela primeira tarde, que não conseguia falar uma palavra. Por isso, peguei logo o apelido de’ lagartixa’. Às 5 h, fomos ao dormitório para vestir o calção a fim de irmos tomar banho no único banheiro que ficava a uns 200 metros, fora do dormitório. Comecei a tirar a roupa e quando já estava quase pelado, o clérigo Milton depressa correu ao meu encontro e me cobriu com o cobertor, dizendo-me também que, depois de vestir o calção, amarrasse a toalha na cintura. Nunca tinha vestido um calção, nem tomado banho de chuveiro, pois em meu sítio natal sempre tomávamos banho nos açudes e em trajes de Adão e Eva. Fiquei muito desajeitado ao me ver dentro daquele longo e grosso calção de mescla. Mas o jeito era seguir o regulamento da casa e assim fui ficar na fila do banheiro, esperando minha vez para tomar meu primeiro banho de chuveiro. Quando chegou a minha vez, entrei no banheiro mas cadê saber abrir o chuveiro. Fiquei matutando lá dentro, sem saber o que fazer. Dei umas pancadas no chuveiro, mas só caíram alguns pingos que mal deram para me molhar um pouquinho. Tive vergonha de sair e dizer que não sabia abrir o chuveiro. Depois de algum tempo, o clérigo Milton bateu na porta e disse: tá na hora de sair. Dei um pulo pra fora e saí sem ter tomado banho algum. Voltei para o dormitório a fim de tirar o calção e vestir-me para o jantar. Antes de entrarmos no refeitório, fizemos uma fila e ouvi que todos rezavam uma oração numa língua que eu não entendia: era o ‘Angelus Domini nuntiavit Mariae’. Ao entramos no refeitório, o clérigo Milton me indicou o lugar à mesa onde eu devia ficar. Sentei-me logo na cadeira mas ele disse: não, porque ainda temos que rezar. Acostumado a jantar só mungunzá, estranhei bastante ao ver na mesa sopa, café e pão. Comi e bebi pouco, pois estava ainda muito inibido.
