Juazeiro do Norte | Comissão de Pastoral de Romarias articula com o IPHAN reconhecimento de espaços sagrados
Juazeiro do Norte | Comissão de Pastoral de Romarias articula com o IPHAN reconhecimento de espaços sagrados
ESCOLA E CENTRO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 4 de maio de 2026 Por pauloRepresentantes da Comissão de Pastoral de Romarias de Juazeiro do Norte participaram, na manhã da última quinta-feira (30), de uma reunião na Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Ceará (IPHAN-CE), em Fortaleza. O encontro teve como pauta a atualização, ampliação e aprovação do dossiê que busca reconhecer os espaços sagrados do município como patrimônio cultural imaterial brasileiro.
A reunião contou com a presença de técnicos do IPHAN e de membros da comissão, entre eles a superintendente no Ceará, Cristiane Buco; o historiador Igor Soares; e a chefe da Divisão Técnica, Ítala Morais. Também participou o deputado federal Idilvan Alencar. Embora não tenham estado presentes, o professor e pesquisador da URCA, José Carlos, auxiliou na articulação do encontro, enquanto o secretário de Cultura de Juazeiro do Norte, Renato Willames, manifestou apoio às solicitações pautadas.
Pela Comissão de Pastoral de Romarias, estiveram presentes o padre Leandro Francisco (SDB), coordenador de Pastoral do Horto do Padre Cícero; o padre Fábio Luciano de Sousa Nascimento, pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus; e o frei Deusimar de Sousa (OFMCap), pároco da Paróquia de São Francisco das Chagas. Também integraram o grupo a articuladora de pastorais da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores, Angelita Maciel, e o secretário da comissão, Francisco Mário.
Durante a reunião, a chefe da Divisão Técnica do IPHAN-CE, Ítala Moraes, destacou a relevância histórica da região do Cariri para a política de patrimônio imaterial no Brasil.
“O Cariri é extremamente importante na concepção da política de patrimônio imaterial para o IPHAN. Os estudos sobre os bens imateriais da região, inclusive, antecedem o Decreto nº 3.551, de 2000”, afirmou.
No encontro, os membros da comissão reivindicaram a inclusão de dois espaços no dossiê: o Santuário do Sagrado Coração de Jesus e o Memorial Padre Cícero, que não foram contemplados na proposta inicial.
Segundo os representantes, a ausência desses locais gerou questionamentos, especialmente diante de sua relevância histórica, cultural e religiosa para a dinâmica das romarias na cidade.
“Sentimos falta do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, um importante ponto de convergência de romeiros e da própria população. Ele também está diretamente ligado ao desejo do Padre Cícero e à construção da religiosidade local”, destacaram.
Os representantes também enfatizaram a importância do Memorial Padre Cícero, considerado um espaço simbólico fundamental para a preservação da memória e da cultura local.
Ainda de acordo com a comissão, houve mobilização para reunir documentos históricos e contribuir com a elaboração do dossiê.
“Organizamos um material que demonstra que o Santuário do Sagrado Coração de Jesus faz parte da história viva de Juazeiro, do movimento romeiro e da religiosidade popular, estando, inclusive, presente no imaginário coletivo da população”, ressaltaram.
A comissão também reforçou a disposição em colaborar tecnicamente com o IPHAN, oferecendo registros, pesquisas e outros subsídios para fortalecer o documento.
“Estamos totalmente abertos a contribuir. O que for necessário — registros fotográficos, documentação, pesquisas — podemos desenvolver e encaminhar. Nosso objetivo é garantir o reconhecimento adequado”, afirmaram.
Os técnicos do IPHAN destacaram que o dossiê é um documento em construção coletiva e que novas contribuições ainda podem ser incorporadas, inclusive com a participação de pesquisadores e representantes locais.
- Foto: Comissão de Romarias e técnicos do IPHAN debatem ampliação de dossiê em Fortaleza. Fonte: Arquivos Institucionais.
Em entrevista, o historiador Igor Soares ressaltou a relevância do processo para a política de preservação do patrimônio cultural no país. Segundo ele, a proposta valoriza o protagonismo dos romeiros na construção histórica e simbólica de Juazeiro do Norte.
“É um processo extremamente relevante porque reconhece a ação dos romeiros como elemento constitutivo do patrimônio cultural, expressando de forma marcante a religiosidade e a cultura popular brasileira”, afirmou.
O técnico também explicou a diferença entre o registro e o tombamento de bens culturais. Enquanto o tombamento implica maior grau de intervenção, o registro está voltado à salvaguarda.
“Após o registro, o foco é a construção de um plano de salvaguarda, com ações de curto, médio e longo prazo definidas coletivamente”, pontuou.
Segundo ele, o reconhecimento prevê ainda um processo contínuo de avaliação. Conforme a legislação vigente, os bens registrados passam por revalidação a cada dez anos, com o objetivo de atualizar informações e acompanhar transformações.
“Esse processo permite identificar mudanças, novos desafios e garantir que o bem continue sendo uma referência cultural ao longo do tempo”, explicou.
A expectativa dos envolvidos é de que o processo de reconhecimento avance nos próximos meses, reafirmando Juazeiro do Norte como um dos principais centros de religiosidade popular do Brasil. Para além do reconhecimento formal, a iniciativa também abre caminho para a estruturação de políticas de salvaguarda que garantam a preservação, valorização e transmissão dos saberes, práticas e espaços ligados às romarias.
O encaminhamento do dossiê, construído de forma coletiva entre poder público, pesquisadores e representantes da sociedade civil, reforça a importância de reconhecer não apenas os espaços físicos, mas também a dinâmica cultural que sustenta a experiência romeira ao longo das gerações. Nesse contexto, a possível inclusão de novos locais amplia a compreensão dessa geografia simbólica e fortalece a narrativa histórica e identitária do município. A consolidação desse reconhecimento, portanto, projeta Juazeiro do Norte em âmbito nacional como referência na articulação entre fé, cultura e políticas de patrimônio.
Por Francisco Mário

